terça-feira, junho 20, 2006

Poema para Cissy (Da série Sagrados e Consagrados)


A fita verde do post anterior, 'Das Cartas' saiu daqui:


"Há um momento após a morte
em que o rosto se torna belo
e os suaves olhos fatigados se fecham;
em que a dor acabou
e a antiga, antiga inocência do amor
gentilmente retorna e fica por perto
apenas por mais um instante.

Há um momento após a morte (que sequer é um momento)
em que as coloridas roupas penduradas no armário perfumado
e o sonho perdido fenecem lentamente;
em que os vidros e o copo de prata e o espelho vazio
e os três compridos fios de cabelo na escova
e o lenço dobrado e a cama refeita
com seus gordos travesseiros (onde nenhuma cabeça
se pousará) é tudo que restou de um grande sonho selvagem.

Mas existem sempre as cartas.
Eu as seguro nas mãos, amarradas numa fita verde,
com firme pureza entre os suaves e fortes dedos do amor.
As cartas não morrerão, esperando pelo estranho que virá lê-las.
Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança.
Virá lentamente, desafiador, pelo correr dos anos
cortará a fita e as espalhará a sua volta
e cuidadosamente as lerá página por página.

E a antiga inocência do amor voltará
Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança,
suave como uma borboleta por uma janela aberta no verão
só por mais um momento, em silêncio, para estar perto,
mas o estranho nunca saberá. O sonho acabou.
O estranho sou eu.

(Raymond Chandler, trad. Newton Goldman (Folha de São Paulo de 02.02.1986 - no Folhetim)
imagem: Evenwicht brons - Anita Franken

3 Comentários:

Blogger Tuca disse...

Amo este poema! Um dos meus preferidos do o folhetim (que ganhei do pai aos 14 anos).
Beijo.

20/6/06 21:55  
Blogger Tuca disse...

Ops... Digitei um "o" a mais.

20/6/06 21:57  
Blogger Margarida disse...

Disso sabemos nós, diria Yôda...

20/6/06 22:50  

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