quinta-feira, abril 20, 2006

Lixo e Purpurina (da série Tributo a Caio)

Para quem, em Londres, também guarda diários...



27 de janeiro
Encontrei este caderno numa squatter-house em Victoria, ontem à noite. Foi enviado da Índia para Mr. John Schwyer Gummer, estava ainda dentro do envelope, mas o endereço na Índia manchou de umidade e mofo. Só dá pra ler "Calcutá". Será um aviso? Sylvia diz que "a Índia está chamando". Encontramos também um cara chamado Jack, especializado em squatters: e trambiques tipo instalações ilegais de luz, água e gás, que vai nos ajudar a descolar casa. Zé apelidou-o de "Jack, o Esquartejador." Fala um cockney quase incompreensível. Espero que consiga mesmo a casa, a polícia nos deu um prazo até amanhã ao meio-dia para sairmos da Bravington Road.
Mas gostei do caderno. Reproduzo o desenho que Angie mandou da prisão. Fica sendo a epígrafe.

28 de janeiro
Hoje é dia de mudar de casa, de rua, de vida. As malas sufocam os corredores. Pelo chão restam plumas amassadas, restos de purpurina, frangalhos de echarpes indianas roubadas, pontas de cigarro (Players Number Six, o mais barato). Chico toca violão e canta London, London: no, nowhere to go. Poucos ainda sorriem e olham nos olhos.
Hoje é dia, mais uma vez, de mudar de casa e de vida. Os olhos buscam signos, avisos, o coração resiste (até quando?) e o rosto se banha de estrelas dormidas de ontem, estrelas vagabundas encontradas pelas latas de lixo abundantes de London, London, Babylon City. Alguém pergunta: "O que é que se diz quando se está precisando morrer?" Eu não digo nada, é a minha resposta. Sento no chão e contemplo os escombros de Sodoma e Gomorra: brava Bravington Road, bye, bye.
Amanhã é dia de nascer de novo. Para outra morte. Hoje é dia de esperar que o verde deste quase fim de inverno aqueça os parques gelados, as ruas vazias, as mentes exaustas de bad trips. Hoje é dia de não tentar compreender absolutamente nada, não lançar âncoras para o futuro. Estamos encalhados sobre estas malas e tapetes com nossos vinte anos de amor desperdiçado, longe do país que não nos quis. Mas amanhã será quem sabe o acerto de contas e Jesuzinho nos pagará todas as dívidas? Só que já não sei se acredito nele.
Tão completamente sento e espero que quase acredito ir além deste estar sentado no meio de escombros, here and now esperando Zé chegar com a notícia de que conseguiu a casa graças aos poderes de Jack na região de Victória, Pimlico. Só espero, não penso nada. Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas como alegria ou fé ou esperança. Mas só fico aqui parado, sem sentir nada, sem pedir nada, sem querer nada.
As crianças sujas e ranhentas da casa ao lado vêm perguntar se somos ciganos: are you gipsies? Sylvia mente que sim - from Yugoslavia, diz, agita no ar o pandeirinho com fitas e finge dançar e ler as linhas das mãos das crianças. Gosto tanto desse jeito que Sylvia tem de aliviar as coisas.
Meu coração vai batendo devagar como uma borboleta suja sobre este jardim de trapos esgarçados em cujas malhas se prendem e se perdem os restos coloridos da vida que se leva. Vida? Bem, seja lá o que for isso que temos...
(...)"
(caio fernando abreu, ovelhas negras)

2 Comentários:

Blogger Alex disse...

MAIS!
MAIS!
MAIS!

**

É tão incrível como ele diz uma verdade que a gente só sente morando aqui: em Londres não existe esperança. As simple as that. Aqui ninguém acredita em divindades que agem sobre nós. Aqui não há interferências celestiais que acertam nossas contas kármicas com o universo.

**

Sabe que faz um tempinho que eu deixei meu diário de lado. Outro dia, procurando um livro na mesma gaveta em que ele está, ele chegou a espreguiçar-se, achando que seria usado. Mas não.

Quem sabe?

**

Adorei, Glau.

Beijo grande

20/4/06 11:30  
Blogger Miranda disse...

Só esse final do dia 28 valeria muitas páginas, não é? É um poema.
Beijos

20/4/06 15:47  

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